As terapias baseadas em Mindfulness têm se tornado as abordagens da moda. Em minha prática clínica, são muitos os encaminhamentos feitos por médicos psiquiatras. Vivemos na época da medicina baseada em evidências e outras áreas da saúde acompanharam essa tendência. No caso do Mindfulness, somente em 2016 foram publicados cerca de 800 trabalhos científicos, sendo que grande parte desses trabalhos se debruçam em comprovar a eficácia do Mindfulness nas mais diversas condições clínicas.  Pessoas que querem aprender a praticar  também nos chegam espontaneamente, porque viram reportagens na mídia, no Google, enfim, Mindfulness está em toda parte, muitas vezes vendido como uma panaceia.

E é nesse plano de fundo que nos chega o cliente para a terapia ou para o grupo de Mindfulness. E, em geral, o discurso inicial é “fui encaminhado por meu psiquiatra para o Mindfulness, pois ele me disse que é bom para a ansiedade e já fiz de tudo para me livrar disso e não consigo. Espero que o Mindfulness possa me ajudar”. Até pode, mas não da maneira como ele gostaria. E é bem provável que esse cliente esteja se referindo à meditação Mindfulness propriamente dita (e Mindfulness não é apenas meditação), tendo a esperança de utilizá-lo como ferramenta ou uma técnica para “se livrar” da sua ansiedade.

O que é esse “se livrar”? Em nossa experiência, ocorrem eventos externos e eventos internos ou privados, como pensamentos, emoções, sensações corporais. Muitos desses eventos privados são aversivos e faz parte da nossa evolução filogenética evitar entrar em contato com esses eventos por uma questão de autoproteção – eles nos causam sofrimento. Essa evitação é denominada esquiva experiencial. Se livrar deles, em curto prazo, gera alívio. No entanto, com o passar do tempo, eles tendem a aumentar em frequência e intensidade, além de nos manter congelados no mesmo lugar, aumentando nossas dificuldades a longo prazo.

Nas abordagens baseadas em Mindfulness, as “queixas, problemas ou sintomas não são entidades estáveis que devem ser diagnosticas e então, extirpadas. O que cria e mantém os sintomas é a resistência, ou seja, nossa tendência instintiva, com frequência pré-verbal, a repelir o desconforto tensionando nossos músculos, pensando demais, bebendo muito ou empregando defesas para reestabelecer nosso equilíbrio. A saúde psicológica, no paradigma de Mindfulness, é a capacidade de estar na experiência momento a momento, de uma forma ampla, profundamente receptiva, mesmo quando ela é difícil. Tal estado mental é acompanhado por qualidades psicológicas saudáveis como flexibilidade, resiliência, autenticidade, paciência, conexão, bondade, compaixão e sabedoria” (Germer, Siegel e Fulton, 2016).

As pessoas que nos procuram para aprender a praticar Mindfulness não sabem nada disso. Eles só sabem que querem se livrar da sua dor emocional. E é natural que eles pensem assim, afinal de contas é dessa maneira que a cultura espera que eles sejam: absolutamente felizes, sem sintomas, sem sofrimento.  Além disso, o que está na mídia sobre Mindfulness é a questão da meditação. Pouco é dito sobre as atitudes que acompanham as práticas de meditação nas terapias baseadas em Mindfulness, especialmente em programas estruturados de oito semanas (se você decidir estudar e praticar profundamente a meditação em contextos religiosos, perceberá que ela não é descontextualizada dos ensinamentos da tradição. Por exemplo, no budismo, a primeira nobre verdade já nos diz que o sofrimento existe. O budismo nos ensina o nobre caminho ócutuplo como forma de nos liberarmos do sofrimento, sendo a meditação um dos passos desse caminho).

É fundamental que o psicoterapeuta esclareça essas questões com seus clientes, evitando que o Mindfulness seja utilizado como mais uma maneira do sujeito não entrar em contato com o seu sofrimento. Quando um cliente me procura para aprender a meditar em atendimentos individuais, eu esclareço que o Mindfulness, dessa forma,  só pode ser utilizado em contexto psicoterápico. Então, se ele decide fazer psicoterapia, vamos juntos! No caso de um grupo de oito semanas, realizar uma palestra ou algum workshop introdutório, ou entrevistas individuais para esclarecimento dos objetivos e processos ou até mesmo um texto que contemple essas questões podem ser suficientes.

Meditar para se livrar da ansiedade, para se livrar da depressão, da dor, da angústia, da vida. É assim que o Mindfulness é utilizado como esquiva experiencial.  Mindfulness é, principalmente, uma abordagem de aproximação do sofrimento humano (e por isso não é possível a sua prática sem autocompaixão). Não praticamos Mindfulness para não sentir ou para não pensar. Praticamos Mindfulness para entrar em contato com a nossa natureza humana e todo o leque de emoções, pensamentos e sensações que nos acompanham, com gentileza e aceitação dessas experiências internas, sem se apegar se são experiências boas ou ruins (não julgamento). Todas elas nos tornam pessoas únicas e perfeitas em nossa natureza, possibilitando que tenhamos vidas plenas.

 

Referência

Germer, C. K.; Siegel, R. D.; Fulton, P. R. Mindfulness e Psicoterapia. Porto Alegre: ArtMed, 2016.

    1 comentário

  1. Taene Nolasco Março 20, 2017 at 4:58 pm

    Pertinente e importante esclarecimento! Adorei! Parabéns pelo teu trabalho! Grande abraço de quem o acompanha desde SC!