Sempre dizemos que Mindfulness é composto pela tríade atenção, atitude e intenção. Inicio, com esse texto sobre o conceito de julgamento no Mindfulness, uma série sobre as 9 atitudes presentes no Mindfulness com base nas descrições de Jon Kabat-Zinn.

Uma definição bem geral de Mindfulness diz: prestar atenção ao momento presente, intencionalmente, com abertura e sem julgamentos. E o que significa o não julgamento no Mindfulness? Uma excelente explicação pode ser encontrada no artigo de Vanderbergh e Souza (2006) intitulado “Mindfulness nas terapias cognitivas e comportamentais” (artigo completo). “Para estar com atenção concentrada no momento atual, os conteúdos dos pensamentos e dos sentimentos são vivenciados na maneira em que se apresentam. Eles não são categorizados como positivos ou negativos. ‘Sem julgar’ significa que o praticante aceita todos os sentimentos, pensamentos e sensações como legítimos. A atitude de não julgar está em contraste com a tendência automática das pessoas de investirem na luta contra vivências aversivas, deixando de viver o resto da sua realidade. O praticante não trata de forma diferenciada, determinados sentimentos (por exemplo, raiva contra uma pessoa admirada ou medo de algum aspecto de si mesmo), pensamentos (como idéias imorais) ou sensações (por exemplo, dor na ausência de uma lesão ou diagnóstico que a justifiquem). São suspensas as racionalizações pelas quais as pessoas costumam truncar suas percepções de eventos inquietantes para encaixá-los nas suas opiniões preconcebidas.”
Ou seja, o não julgar no Mindfulness está relacionado muito mais às nossas experiências internas do que externas, está muito mais relacionado ao conceito de desapego (não se apegar se uma experiência é boa ou ruim – é observá-la como ela está ocorrendo no momento presente).
No nosso dia a dia, a palavra julgar está sempre presente. A palavra provém do latim judicare. É considerado como o ato de julgar pelo qual uma apreciação dos fatos e circunstâncias são feitas com efeitos de tomar uma decisão sobre algo. Eu julgo (avalio) e decido se vou ou se fico, se gostou ou se não gosto, se tomo partido de uma ação ou não. Não tomar partido nenhum, se omitir de uma posição também é um posicionamento que surge a partir de um julgamento, por exemplo, não vou opiniar sobre política no Facebook, pois isso pode prejudicar a minha imagem profissional. Existe um julgamento e uma ação. Quando eu questiono uma pessoa por ela fazer julgamentos a respeito de fatos e pessoas, eu também estou fazendo um julgamento (mas a maioria das pessoas acham que não – e isso é um julgamento meu). Seria um “meta julgamento”?
É claro que à medida que eu avanço na minha prática e estudos, é possível que eu me depare com o conceito de coemergência e entenda que o surgimento dos objetos são inseparáveis de uma posição mental. E aí vai ficar meio contrangedor para si prório julgar demasiadamemente a ação das pessoas (assim como falar mal dos outros – mas isso também é um julgamento meu). E aí você observa esse contrangimento, sem julgamentos, acolhendo-o como parte da sua natureza humana. E esse é o caminho da vida, não de poucos anos praticando Mindfulness laico (ou até muitos, porque ninguém vai se iluminar praticando Mindfulness laico).

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